foi um momento de pensar hipocrisias. envergonhada, uso do sutil silêncio das palavras escritas – bradá-las alto e claro pudesse ser assim encontro e perda. são dias de fragilidade: ninguém mais tem o café de alma calma, ninguém vai ao trabalho com andares leves, um segundo a mais na chuva e é possível perceber o cheiro do medo. uma pessoa frágil é o campo de estudos dos comportamentos que nunca se entendem; como se só pudéssemos reconhecer uma pessoa quando ela estiver irreconhecível para si mesma.
(agosto de 2009)
é tempo de lamber mais dedos do que se tem nas mãos! ouvi o grito de pés atados enquanto mundos orbitavam por debaixo, nenhuma cor. passava, até, os dedos pelos lábios, mas não podia lambê-los por pudor, por dor, pela pura libertinagem explícita que seria lambê-los assim, às escuras e longe de todos. mas deixemos os dedos, duros e frios, voltemos aos mundos, nenhum suficiente. correm alucinados por debaixo dos pés de pernas que não identifico, mas também não recuso, e que visto como se fossem minhas e desando a caminhar sobre febres terçãs e macadâmias, inexistentes, frutos de nada além de minhas orações. previsivelmente doces e de sombras turvas vão ali seis ou sete mil mundos, seis ou sete mil órbitas burras e cegas, e recusamos uma a uma portando sorrisos distantes que não reconhecemos. um dia nascerá algum outro mundo que possamos comer, eu rezo, esmagando com força um punhadinho de flores rasteiras por não aguentar a leveza com que seguem aquela maldita existência ordenada e serena. e quando o dia chegar (o dia do outro mundo) haverá flores rasteiras por toda a superfície. e vamos comer uma por uma, elas e esse cheiro de cru que tanto ansiamos na inocência de desejar por qualquer coisa que não seja sonho. mas não hoje. hoje, não. existe pelo menos uma hora de podre na duração de cada dia.
“Como sempre, às mulheres, de um lado lhes chove, do outro lhes faz vento”
Saramago, em Caim
experimento
não se canse, meu amor. não se canse.
há pernas pelas ruas, e não te é permitido cansar.
as unhas estão limpas, teu corpo é saudável
a conta bancária segue caminhos tranquilos
e o coração bate.
não se canse.
a noite vem de braços dados a um vento frio
porém não úmido
e o insuportável e doloroso calor ainda não chegou.
as casas continuam presas aos quintais
e os carros passam, sonoros.
não há sangue pelo chão,
nem apelos de criança perdida,
nem velhos a reclamar.
não há desespero no futuro
e o presente se impõe
como todos os presentes, imóvel e inquieto.
a escada ainda sobe, levando a lugar algum.
não te é permitido cansar.
os olhos da coruja recordam tempos semelhantes
as peles coloridas são ainda coloridas
nada de água invadindo terra
nada de ar invadindo água
e o peito, em fogo, repousa calado
e sem chamas.
não se canse, não te cansarás
e a herética melancolia de estar vivo
dormirá tranquilamente no renascer dos dias
desempoeirando a direção.

das noites, o mais difícil era piscar. alexandria queimou quase inteira, e eu contando pintas. haverá um local exato a serem depostas todas as mortes? se houver, gostaria que a minha fosse assim, perto de pedras, mas também não muito longe das águas ou das crianças. a parede do fim do caminho das tentativas é sempre tão cheia de sangue. mas quem foi mesmo que chegou até lá? drummond querido drummond disse que o mundo não vale o mundo. aqui atrás de mim há um Bosco grande, monstruoso, dividido em sete lâminas. em uma delas vou entrar só por rejeitar o meio. aquelas pessoas pequenininhas, de roupas feias, quase se pode sentir o cheiro fétido daqueles marrons, aquelas mães atadas a um sentimento de compaixão, aquelas faces retorcidas e o fogo, labareda. onde o pousa o mistério do beija flor, se suas asas batem tão rápido? a beleza é algo imóvel. como um cílio torto ou um joelho malformado. a reconstrução de uma vida começa com um banho. ensinar os olhos a habitar o horizonte.
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no verão nascem dias em que o destino é tão sólido quanto um azulejo, e o mundo em silêncio grita uma agonia em flauta doce. era um desses dias (só se fazem cinco ao ano) e brincávamos com dedinhos úmidos sobre as poças das lágrimas que ainda estavam por derramar. suspendíamos no ar uma coisa corporal que podiam ser mãos ou dedos e logo nos desfazíamos na imensa dúvida do agora, um ponteiro de relógio traçado a ouro. a ameaça mais fatal que a própria essência.
quando os olhos piscam, que imagem aparece para você? se me pergunto antes de piscar, vejo um campo de margaridas doces e translúcidas, serventes de um sol que se põe atrasado para o resto da vida. “podiam cuspir em minha cara”, pensamos, eu e Artaud.
“A poesia a gente tem que vivê-la dia a dia, todos os dias, todos os minutos. Você tem que ser poesia, tem que trabalhar aquilo em você. Você tem que levar uma vida em estado de poesia, mesmo se preocupando em pagar contas como todo mundo. Mas ao mesmo tempo sempre em estado de poesia, nunca deixando pra depois. A poesia não dá pra deixar pra depois.”
Alice Ruiz



